Para muitos entusiastas da cultura custom, o volante é o principal ponto de contato entre o motorista e a máquina. Ele não é apenas um componente de direção; é uma extensão do estilo do proprietário e uma peça fundamental na ergonomia da condução. No entanto, surge uma dúvida recorrente em fóruns, grupos de WhatsApp e oficinas de preparação: trocar o volante original do carro é permitido por lei ou pode resultar em multa e apreensão do veículo?
A resposta curta é que depende de uma série de fatores técnicos e normativos estabelecidos pelo Conselho Nacional de Trânsito (CONTRAN). Modificar um veículo no Brasil exige navegar por um mar de resoluções que visam, primordialmente, a segurança dos ocupantes e de terceiros.
A função do volante além da direção
Antes de mergulharmos nas leis, é preciso entender por que as fabricantes investem milhões no desenvolvimento de um volante. Ele abriga sistemas críticos como o airbag, controles de áudio, piloto automático e, em carros modernos, sensores de fadiga. Quando decidimos substituir essa peça por um modelo esportivo — como os clássicos da Momo, Sparco ou marcas nacionais de renome — estamos alterando a interface de segurança ativa e passiva do automóvel.
A busca por um diâmetro menor, uma pegada mais firme em camurça ou um design “deep dish” clássico dos carros de drift muitas vezes entra em conflito direto com as especificações de fábrica que foram homologadas pelo INMETRO e Denatran.
O que diz a legislação brasileira sobre a troca do volante
O ponto de partida para qualquer modificação automotiva no Brasil é o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) e as resoluções complementares do CONTRAN. Historicamente, a Resolução 292 era a principal referência para modificações, mas o cenário evoluiu.
Atualmente, a regra de ouro é clara: é proibida a retirada de equipamentos de segurança instalados originalmente pela montadora. Isso significa que, se o seu carro saiu de fábrica equipado com airbag frontal, você não pode substituí-lo por um volante esportivo que não possua esse dispositivo.
Carros com Airbag: A barreira legal
Se o seu veículo foi fabricado após 2014, ele obrigatoriamente possui airbags frontais. Retirar o volante original para instalar um modelo esportivo comum desativa o sistema de proteção suplementar. Do ponto de vista da fiscalização, isso é considerado uma alteração de característica que compromete a segurança.
Em uma eventual blitz, se o agente de trânsito notar a ausência do airbag (seja pela luz de advertência acesa no painel ou pela característica óbvia do volante novo), o condutor pode ser autuado com base no Artigo 230 do CTB. A infração é grave, gera cinco pontos na CNH, multa e a retenção do veículo para regularização.
Veículos antigos e a ausência de Airbag
Para os donos de carros clássicos ou modelos populares fabricados antes da obrigatoriedade do airbag, a situação é um pouco mais flexível, mas não é um “liberou geral”. O volante substituto deve manter a funcionalidade básica e não pode obstruir a visão do painel de instrumentos ou dificultar o acesso às alavancas de seta e limpadores. Além disso, o diâmetro do novo componente deve ser compatível com o esforço necessário para manobrar, especialmente em carros sem direção hidráulica.
Os riscos de segurança na instalação de volantes paralelos
Além do aspecto legal, existe a preocupação com a integridade física. O mercado está inundado de réplicas de baixo custo que utilizam materiais de qualidade duvidosa. Em caso de colisão, um volante original é projetado para colapsar ou deformar de maneira a não empalar o motorista.
Volantes esportivos de baixa qualidade podem quebrar, soltar-se do cubo ou apresentar falhas estruturais sob estresse. Por isso, a escolha de um cubo adaptador de qualidade é tão importante quanto o volante em si. O cubo deve ser específico para o modelo do carro, garantindo que o estriado da coluna de direção se encaixe perfeitamente, sem folgas que possam causar a perda de controle do veículo.
O problema da luz do Airbag no painel
Muitos proprietários tentam enganar o sistema eletrônico do carro instalando resistores para apagar a luz de erro do airbag após a troca do volante. Embora isso evite o incômodo visual no painel e possa passar despercebido em uma fiscalização superficial, em um acidente, o sistema de retenção completo (incluindo os pré-tensionadores dos cintos de segurança) pode não funcionar corretamente porque a central detecta uma anomalia na rede.
Como realizar a troca de forma responsável e estética
Se você ainda deseja seguir com a customização, existem caminhos que equilibram o desejo estético com a funcionalidade. Para carros modernos, uma tendência crescente é o revestimento personalizado do volante original. Empresas especializadas utilizam materiais como alcântara, couro perfurado e fibra de carbono, mantendo a carcaça original e, consequentemente, o airbag intacto.
Outra opção, embora mais dispendiosa, é a importação de volantes esportivos que já vêm com o módulo de airbag integrado, comuns em linhas de alta performance de marcas alemãs. Contudo, a adaptação eletrônica desses componentes requer mão de obra altamente qualificada para garantir que o disparo do airbag ainda responda aos sensores de impacto originais.
Critérios para escolher um bom volante esportivo
Se o seu carro permite a troca legal (sem airbag original), considere os seguintes pontos:
- Certificação: Verifique se o fabricante possui selos de qualidade ou histórico em competições.
- Material: Prefira volantes com estrutura em alumínio de alta resistência e revestimento que garanta aderência mesmo com suor nas mãos.
- Ergonomia: O “offset” ou profundidade do volante altera a distância dos seus braços. Um volante muito profundo pode afastar demais suas mãos das alavancas de comando.
Inspeção Veicular e o Certificado de Segurança Veicular (CSV)
Muitas vezes, modificações profundas exigem que o veículo passe por uma inspeção em órgãos credenciados pelo INMETRO para obter o CSV. No caso específico do volante, raramente se consegue a regularização de um modelo sem airbag em um carro que possuía o item de fábrica. A legislação brasileira é rígida quanto ao retrocesso em itens de segurança.
Entretanto, se a alteração for apenas de diâmetro ou material em um carro que não possuía airbag, a inspeção costuma ser tranquila, desde que o componente esteja fixado corretamente e não apresente arestas cortantes ou riscos estruturais evidentes.
O impacto na revenda e no seguro automotivo
Um ponto frequentemente esquecido pelos entusiastas é o impacto da troca do volante no valor de revenda e na cobertura do seguro. Seguradoras podem se recusar a pagar indenizações integrais se constatarem que um equipamento de segurança (airbag) foi removido ilegalmente. Em caso de sinistro com vítimas, o proprietário pode até responder judicialmente pela retirada de um item que poderia ter mitigado as lesões.
No mercado de usados, a menos que o comprador seja também um entusiasta, o volante modificado tende a depreciar o carro, pois sugere um uso mais severo ou esportivo, além de levantar dúvidas sobre a procedência e manutenção dos sistemas eletrônicos.
Conclusão: Vale a pena o risco?
A cultura das modificações automotivas é sobre expressão pessoal e melhoria de performance. No entanto, o volante é um dos poucos componentes onde a margem para erro é zero. Se o seu carro é um “daily driver” moderno, a recomendação técnica e legal é manter o componente original ou buscar uma customização estética que preserve o módulo de airbag.
Para projetos de pista, “track days” ou carros clássicos de coleção, a troca é uma prática comum e, quando bem executada com peças de alta qualidade, transforma a experiência de direção. O segredo está em conhecer a lei para não ser pego de surpresa e, acima de tudo, priorizar a sua vida e a de quem viaja com você.







