Quando falamos sobre a era de ouro dos carros esportivos japoneses dos anos 90, os nomes que surgem de imediato são quase clichês: Supra, Skyline GT-R, RX-7 e NSX. No entanto, longe dos holofotes dos supercarros de seis cilindros e tração integral, existia uma categoria que pulsava com igual intensidade nas ruas de Tóquio e nos circuitos de Tsukuba: os pocket rockets. Entre eles, um modelo específico da Toyota conquistou um status cult por entregar uma relação peso-potência visceral em uma embalagem compacta e, visualmente, inofensiva. Estamos falando do Toyota Starlet Glanza V (EP91).
Este não é apenas mais um hatchback econômico com um adesivo “turbo”. O Glanza V representa o ápice de décadas de refinamento da Toyota na linha Starlet, transformando um carro citadino em uma máquina de precisão capaz de envergonhar carros com o dobro da sua cilindrada. Se você busca entender por que esse 1.3 turbo ainda é reverenciado por entusiastas de track days e colecionadores de JDM (Japanese Domestic Market) ao redor do mundo, prepare-se para um mergulho técnico e cultural profundo.
A Linhagem Turbo: Do EP71 ao Nascimento do Glanza
Para entender o Glanza V, precisamos retroceder aos anos 80. A Toyota não caiu de paraquedas no mundo dos hatchbacks de alto desempenho. Tudo começou com o Starlet EP71 Turbo S, que introduziu o motor 2E-TELU. Mas foi na geração seguinte, a EP82, conhecida como Starlet GT Turbo, que a receita foi aperfeiçoada.
O GT Turbo (o antecessor direto do Glanza) já utilizava o lendário motor 4E-FTE, mas com uma estética muito mais agressiva e angular, típica do início dos anos 90. Quando a Toyota lançou a série EP91 em 1996, ela decidiu dividir a personalidade do carro. O nome “Glanza” foi introduzido para substituir as variantes esportivas, sendo o Glanza S a versão aspirada e o Glanza V o rei da linha, equipado com turbocompressor.
A proposta do Glanza V era ser um carro mais refinado que o antigo GT Turbo. O design tornou-se mais aerodinâmico, com faróis arredondados e linhas suaves, mas mantendo o icônico scoop no capô (totalmente funcional) que alimentava o intercooler montado no topo do motor.
O Coração de Ferro: Por que o Motor 4E-FTE é Especial?
No centro da experiência do Starlet Glanza V está o motor 4E-FTE. Trata-se de uma unidade de quatro cilindros em linha, 1.3 litros (1331cc), 16 válvulas e comando duplo no cabeçote (DOHC). Embora a cilindrada pareça modesta para os padrões atuais, a engenharia aplicada aqui foi focada em eficiência e resposta rápida.
A Magia do Turbocompressor CT9
Diferente dos grandes turbos que levam uma eternidade para “encher”, o Glanza V utiliza o turbo Toyota CT9. Ele foi projetado para oferecer torque imediato. De fábrica, o carro entregava cerca de 133 cv (135 PS) a 6.400 rpm e 16 kgfm de torque. Em um carro que pesa pouco mais de 900 kg, esses números traduzem-se em uma agilidade absurda.
O Sistema de Boost Dual (Hi/Lo)
Uma característica técnica fascinante e muitas vezes esquecida é o botão de controle de pressão no painel. A Toyota implementou um sistema de dois estágios:
- Low Boost: Limitava a pressão para economizar combustível e facilitar a condução em pisos molhados (aproximadamente 0.4 bar).
- Hi Boost: Liberava toda a fúria do CT9 (cerca de 0.65 bar).
Essa dualidade tornava o Glanza V um daily driver perfeito durante a semana e um monstro de subida de montanha (touge) nos fins de semana.
Dinâmica de Condução: O Desafio de Lidar com a Leveza
Dirigir um Glanza V é uma lição de física. Com uma distância entre eixos curta e um motor dianteiro transversal, o carro é extremamente propenso ao lift-off oversteer (sobresterço ao aliviar o acelerador). Para um motorista experiente, isso significa que o carro pode ser “rotacionado” nas curvas com uma precisão cirúrgica. Para um novato, pode ser o caminho mais rápido para uma rodada.
O Diferencial de Deslizamento Limitado (LSD)
Um dos diferenciais (literalmente) que elevava o Glanza V acima de seus concorrentes era a opção de um LSD helicoidal de fábrica. Em carros de tração dianteira potentes, o “torque steer” (quando o carro puxa para os lados sob aceleração) é um problema comum. O LSD original da Toyota ajudava a mitigar isso, garantindo que a potência fosse entregue de forma mais equilibrada entre as rodas dianteiras ao sair de curvas fechadas.
Cultura e Estilo: O Movimento OEM+ e Stance
No ecossistema da modificação, o Starlet Glanza V é uma tela em branco altamente valorizada. Existem três caminhos principais que os donos de Glanza costumam seguir, e cada um reflete uma faceta da cultura automotiva:
- OEM+ (Original Equipment Manufacturer Plus): O objetivo é manter a estética original, mas com upgrades de modelos superiores ou edições limitadas. Isso inclui o uso de saias laterais opcionais de fábrica, o lábio frontal (lip) “98 spec” (da atualização de 1998) e rodas de marcas japonesas clássicas como Rays Volk Racing TE37 ou Enkei RPF1.
- Track Day / Time Attack: Aqui, o foco é a função. Bancos concha Recaro, gaiolas de proteção (roll cages), suspensão do tipo coilover com ajuste de camber e a remoção de itens de conforto para reduzir o peso abaixo dos 850 kg.
- A Rota do Drag e Potência Extrema: Devido à robustez do bloco 4E, não é raro ver Glanzas com turbos TD04 (dos Subaru Impreza) ou até mesmo o motor 5E-FTE (1.5L do Toyota Paseo/Cynos) instalado, alcançando marcas superiores a 250 cv com facilidade.
Starlet Glanza V vs. Honda Civic VTi (EG6/EK4): O Eterno Rival
Não se pode falar do Glanza sem mencionar o seu maior adversário na época: o Honda Civic. Enquanto a Honda apostava na aspiração natural e no grito agudo do sistema VTEC, a Toyota seguia a filosofia do torque em baixa e média rotação proporcionado pelo turbo.
- Civic VTi: Mais linear, motor que gira até 8.000 rpm, suspensão double-wishbone superior.
- Glanza V: Entrega de torque mais explosiva, mais fácil de extrair potência com modificações baratas, porém com uma suspensão traseira de feixe de torção mais simples.
A escolha entre os dois geralmente se resume ao gosto pessoal: você prefere a pureza mecânica de um motor girador ou o “soco no estômago” que um pequeno turbo proporciona quando a pressão sobe?
O Lado Prático: Manutenção e O Que Observar ao Comprar
Se você está considerando importar ou comprar um Glanza V, precisa estar ciente de que, apesar de ser um Toyota, ele é um esportivo de 30 anos.
Pontos Positivos (Prós):
- Confiabilidade Mecânica: O motor 4E-FTE é extremamente robusto se bem mantido.
- Economia: Quando não se está pisando fundo, ele é surpreendentemente econômico para um carro de performance.
- Comunidade: Existe uma rede global de entusiastas, especialmente no Reino Unido, Irlanda e Austrália, o que facilita a busca por tutoriais e peças de reposição.
Pontos Negativos (Contras):
- Peças de Acabamento: Peças plásticas internas e componentes de carroceria específicos do Glanza (como o para-choque frontal da série 98) estão ficando caros e raros.
- Corrosão (Rust): Como muitos carros japoneses dessa era, os arcos das rodas e as caixas de ar são propensos a ferrugem, especialmente em países com clima úmido ou onde se usa sal nas estradas.
- Segurança: É um carro dos anos 90. Além do airbag opcional e ABS, a proteção em colisões é mínima comparada aos padrões modernos.
Por que ele é a “Joia Esquecida”?
O termo “esquecido” pode parecer estranho para quem vive no Reino Unido ou na Irlanda, onde o Starlet é um ícone das ruas. No entanto, em mercados como as Américas, o Glanza V nunca foi vendido oficialmente, o que o torna um fantasma. Enquanto o Supra e o Trueno AE86 ganharam fama mundial através de filmes e animes (Velozes e Furiosos e Initial D), o Glanza V permaneceu um herói local, conhecido apenas por quem realmente entende de JDM.
Ele é o carro para quem quer algo diferente do óbvio. É o carro que, parado em um encontro, atrai o olhar do entusiasta “raiz” que sabe o esforço necessário para manter um pequeno turbo japonês de importação direta rodando perfeitamente.
Perguntas Frequentes (FAQ)
1. Qual é a velocidade máxima do Toyota Starlet Glanza V? De fábrica, o Glanza V é limitado eletronicamente a 180 km/h, como a maioria dos carros JDM da época. Sem o limitador, ele pode atingir aproximadamente 210 km/h, embora sua aerodinâmica de hatchback não seja ideal para velocidades extremas.
2. O motor 4E-FTE é confiável para o uso diário? Sim, extremamente. Se mantido com trocas de óleo regulares e pressão de turbo original, o 4E-FTE pode ultrapassar os 200.000 km sem problemas graves. O segredo é respeitar o tempo de aquecimento e resfriamento do turbo.
3. É caro manter um Glanza V no Brasil ou em países onde não foi vendido? O custo maior será com logística e importação. Muitas peças mecânicas são compartilhadas com outros motores da série E da Toyota (como do Corolla ou Paseo), mas componentes específicos de performance e carroceria exigirão compras em sites como eBay UK ou leilões japoneses (Yahoo Auctions).
4. Qual a diferença entre o Glanza V 96 spec e o 98 spec? A atualização de 1998 trouxe mudanças estéticas: novos faróis com lentes multi-refletoras, lanternas traseiras atualizadas, um para-choque frontal com entradas de ar maiores e melhorias leves no acabamento interno e estofamento.
5. Posso instalar um turbo maior no motor original sem forjar? O motor 4E-FTE aguenta upgrades moderados, como o turbo TD04, com cerca de 0.8 a 1.0 bar de pressão (aproximadamente 180-200 cv), desde que o gerenciamento eletrônico e o sistema de combustível (bicos e bomba) sejam atualizados. Acima disso, recomenda-se forjar pistões e bielas.
O Legado de um Gigante Pequeno
O Toyota Starlet Glanza V (EP91) é a prova de que potência não é tudo. Em um mundo cada vez mais dominado por carros pesados e eletrônicos, a simplicidade de um motor turbo mecânico em um chassi leve é uma experiência que todo gearhead deveria ter ao menos uma vez na vida. Ele não precisa de 500 cavalos para ser divertido; ele precisa apenas de uma estrada sinuosa, um piloto disposto e o som clássico do descarte de pressão da wastegate ecoando pelo vale.
O Glanza V pode ser “esquecido” pelas massas, mas para aqueles que conhecem sua história e sentiram seu torque explosivo, ele continua sendo uma das joias mais brilhantes da coroa da Toyota.







