Se você pedir para qualquer entusiasta automotivo listar os cinco carros mais importantes da história do Japão, é estatisticamente impossível que o Toyota Supra fique de fora. Mais do que um simples carro esportivo, ele se tornou um fenômeno cultural, um símbolo de resistência mecânica e o protagonista de sonhos de uma geração inteira criada à base de filmes de ação e videogames de corrida.
No entanto, reduzir a história do Supra apenas à sua fama nas telas de cinema é ignorar a engenharia brilhante que o sustenta. Para entender por que esse modelo alcançou o status de divindade no mundo do tuning, precisamos olhar sob o capô e analisar a trajetória de um carro que começou como uma versão de luxo e terminou como um caçador de supercarros.
Da Sombra do Celica à Identidade Própria
Muitos desconhecem que a história do Supra não começou com um modelo independente. Em 1978, a Toyota buscava uma resposta para o Datsun (Nissan) Z, que dominava o mercado norte-americano. A solução foi alongar o chassi do popular Celica para acomodar um motor de seis cilindros em linha. Nascia assim o Celica Supra (ou Celica XX no Japão).
Nas duas primeiras gerações (A40 e A60), o carro era um Grand Tourer (GT) confortável, focado em cruzar estradas com suavidade, e não em devorar curvas em circuitos. Contudo, a semente da performance já estava plantada. A injeção eletrônica e a suspensão independente, introduzidas na segunda geração, mostravam que a Toyota estava refinando sua fórmula.
Foi apenas em 1986, com a chegada da geração A70 (MK3), que o cordão umbilical foi cortado. O Celica seguiu seu caminho com tração dianteira (e depois integral no GT-Four), enquanto o Supra assumiu sua vocação: tração traseira, motores potentes e foco total em desempenho. O MK3 foi um salto tecnológico imenso, introduzindo freios ABS e suspensão ajustável eletronicamente (TEMS), preparando o terreno para o que viria a seguir.
O Rei das Ruas: A Chegada do MK4 (A80)
Se o MK3 foi o ensaio, o Supra MK4 (A80), lançado em 1993, foi o espetáculo principal. Sob a direção do engenheiro chefe Isao Tsuzuki, a Toyota decidiu que não queria apenas competir com os rivais japoneses (como o Nissan Skyline GT-R e o Mazda RX-7); o objetivo era incomodar a Porsche e a Ferrari.
Para isso, a equipe de engenharia focou obsessivamente na redução de peso. Capô de alumínio, volante de magnésio e até mesmo fibras de carpete ocas foram utilizados para garantir que o carro fosse mais leve que seu antecessor. O design arredondado e atemporal, com a icônica asa traseira alta (opcional, mas onipresente), não era apenas estético; era funcionalidade aerodinâmica pura.
Nesse contexto, o Supra MK4 se destacou por uma dirigibilidade afiada e um sistema de freios que, na época, registrou recordes de frenagem que levaram anos para serem superados por carros muito mais caros.
O Coração da Besta: Motor 2JZ-GTE
Não há como explicar a lenda do Supra sem dedicar um capítulo à sua alma: o motor 2JZ-GTE. Para muitos preparadores e engenheiros, este é, indiscutivelmente, o melhor motor de seis cilindros em linha já produzido. Mas por que tanta idolatria?
A resposta reside na sobredimensão de seus componentes. A Toyota construiu o 2JZ com um bloco de ferro fundido extremamente robusto e um design de “deck fechado”, o que lhe confere uma rigidez estrutural absurda. Enquanto motores modernos muitas vezes exigem reforços internos para lidar com aumentos modestos de potência, o 2JZ original de fábrica suporta cargas de potência muito acima dos seus 320 cv originais (na versão biturbo exportada).
Além disso, a arquitetura de seis cilindros em linha é naturalmente equilibrada, eliminando vibrações excessivas e permitindo rotações altas com suavidade. Quando os tuners descobriram que podiam extrair 600, 800 ou até 1.000 cavalos de potência sem precisar trocar os pistões ou o virabrequim originais, o Supra deixou de ser apenas um carro rápido para se tornar uma plataforma de modificação sem limites.
O Impacto na Cultura Pop e no Tuning
A virada do milênio trouxe consigo um fenômeno que cimentou o Supra no imaginário popular: o filme Velozes e Furiosos (2001). Ao ver o personagem Brian O’Conner humilhar uma Ferrari com um Supra laranja resgatado do ferro-velho, o mundo automotivo mudou.
De repente, o valor de revenda do MK4 disparou. O estilo JDM (Japanese Domestic Market) invadiu o ocidente. Modificações estéticas, neons, kits de carroceria largos (widebody) e, claro, o som inconfundível das válvulas de alívio dos turbos tornaram-se a nova religião dos entusiastas.
Por outro lado, essa fama teve um custo. Tornou-se cada vez mais difícil encontrar um Supra original (“stock”). A maioria dos exemplares foi modificada, o que hoje torna os modelos intocados verdadeiras relíquias de colecionador, alcançando cifras milionárias em leilões.
O Retorno Polêmico: Supra MK5 (A90)
Após o fim da produção do MK4 em 2002, o mundo ficou 17 anos órfão de um novo Supra. Rumores surgiam anualmente, mas foi apenas em 2019 que a quinta geração, o GR Supra (A90), foi apresentada. A recepção, contudo, foi mista e ruidosa.
A Toyota, buscando viabilidade econômica em um mercado que prioriza SUVs, firmou uma parceria com a BMW. O novo Supra compartilha a plataforma e a mecânica com o BMW Z4. Para os puristas, isso foi uma heresia. “Não é um Supra, é um BMW”, diziam as críticas nas redes sociais.
Entretanto, uma análise fria e técnica revela que o MK5 é um sucessor digno. O motor B58 da BMW, um seis cilindros em linha turbo, é considerado o “2JZ moderno” por sua confiabilidade e potencial de preparação. O chassi é mais rígido que o do Lexus LFA (um supercarro de fibra de carbono) e a distância entre eixos curta torna o carro extremamente ágil.
Com o tempo, a poeira baixou e a comunidade de tuning abraçou o A90. Kits de fuselagem larga da Pandem e preparações de motor que ultrapassam os 1.000 cv já são realidade, provando que, independentemente da origem das peças, o espírito do Supra permanece vivo. A Toyota, ouvindo os fãs, inclusive lançou posteriormente a versão com câmbio manual, corrigindo a principal crítica do lançamento.
Por que o Supra Ainda Importa?
Em um mundo automotivo que caminha a passos largos para a eletrificação total e para a condução autônoma, o Toyota Supra representa a resistência da conexão homem-máquina. Ele nos lembra de uma era onde a engenharia mecânica era levada ao extremo, não por regulamentações, mas pela pura busca de performance e durabilidade.
Seja um MK4 clássico com seu motor de ferro fundido ou um MK5 moderno devorando curvas em Nürburgring, o nome Supra carrega um peso que poucos modelos conseguem sustentar. Ele é a prova de que um carro pode ser mais do que um meio de transporte; pode ser uma tela em branco para a expressão pessoal e um marco de engenharia que desafia o tempo.
Se você está pensando em entrar no mundo do tuning ou apenas quer entender a cultura automotiva japonesa, o Supra não é apenas um capítulo dessa história — ele é o livro inteiro.







