A abertura das importações no Brasil no início dos anos 1990 trouxe uma enxurrada de tecnologia e sofisticação que redesenhou o mercado automobilístico nacional. No topo dessa vanguarda japonesa estava o Honda Accord EXR. Enquanto o Civic conquistava os jovens e entusiastas de esportivos compactos, o Accord consolidava-se como o sedan executivo definitivo, rivalizando com medalhões europeus e com o topo da linha nacional da época, como o Chevrolet Omega.
Décadas depois, o cenário mudou. Aquele sedan imponente que habitava as garagens dos bairros nobres perdeu o status de transporte executivo, mas ganhou algo muito mais valioso para a cultura automotiva: a atenção dos gearheads. Hoje, as linhas retas, a silhueta baixa e a engenharia superdimensionada das quarta (CB) e quinta (CD) gerações do Accord EXR fazem dele uma das telas em branco mais cobiçadas para projetos de modificação baseados nas filosofias Clean e OEM+.
O Contexto Histórico: De Símbolo de Status a Ícone Underground
Para compreender o valor de um Accord EXR dos anos 1990, é preciso entender o contexto de sua chegada. O modelo EXR representava o topo da gama da Honda. Ele entregava itens de conveniência que pareciam ficção científica para o motorista brasileiro médio em 1994: teto solar elétrico, freios ABS nas quatro rodas, airbags, piloto automático (cruise control) acionado no volante e um isolamento acústico exemplar.
Mecanicamente, o Accord era um ápice de durabilidade. A Honda projetava seus carros para resistirem ao mercado norte-americano, o que significava que o veículo precisava rodar centenas de milhares de milhas apenas com manutenção básica. Quando esses carros atingiram o mercado de usados premium e, posteriormente, caíram no gosto dos entusiastas de modificação, a robustez de sua construção revelou-se o aliado perfeito para quem busca um carro de projeto confiável, confortável para o uso diário (daily driver) e com forte presença de palco.
A escolha do Accord EXR para um projeto de customização foge do óbvio. Enquanto a maioria busca o Civic pela facilidade de peças de performance, o proprietário de um Accord busca exclusividade, refinamento e o prazer de guiar um autêntico “cruiser” de estradas com a clássica dinâmica de condução dos anos 1990.
Anatomia de um Clássico: A Engenharia por Trás do Accord EXR
Construir um projeto respeitável exige conhecer os alicerces mecânicos do veículo. O Accord EXR não é apenas um rosto bonito com linhas retas; sob a carroceria, há soluções de engenharia que muitas marcas abandonaram nos anos seguintes devido ao custo de produção.
O Motor F22: Robustez e o Ronco Sutil do VTEC
O coração do Accord EXR na década de 1990 é o motor da série F, mais especificamente o F22B1 de 2.2 litros com comando simples no cabeçote (SOHC) e o lendário sistema VTEC (Variable Valve Timing and Lift Electronic Control). Ao contrário dos motores B-Series do Civic VTi, focados em altas rotações e potência específica extrema, o F22B1 foi calibrado para oferecer torque em baixas e médias rotações, entregando 145 cavalos de potência e um rodar extremamente linear.
O bloco de alumínio conta com camisas de ferro fundido, o que confere a este motor uma resistência absurda a abusos térmicos e mecânicos. Embora não seja um motor voltado para performance pura em arrancadas no formato original, o F22 aceita muito bem pequenas modificações de fluxo, como sistemas de exaustão bem dimensionados e admissão de ar menos restritiva, liberando o clássico ronco encorpado do VTEC sem comprometer a confiabilidade. Além disso, para os entusiastas mais puristas, o bloco F-Series compartilha pontos de fixação com o cabeçote do motor H22 (do Honda Prelude), permitindo o famoso swap “Frankenstein” (F20/F22 com cabeçote H22 DOHC VTEC), uma modificação complexa, mas venerada no meio JDM.
Suspensão Double Wishbone: O Segredo de um Fitment Perfeito
Se existe um fator que isola o Accord dos sedans modernos e o eleva ao status de lenda para projetos de postura (stance), esse fator é a suspensão por braços duplos triangulares, conhecida mundialmente como Double Wishbone, presente tanto na dianteira quanto na traseira.
Diferente do sistema MacPherson — amplamente utilizado pela indústria por ser mais barato e ocupar menos espaço —, o sistema Double Wishbone mantém o controle quase perfeito da cambagem da roda durante todo o curso da suspensão. Quando você rebaixa um Accord EXR utilizando coilovers de qualidade, a geometria da suspensão compensa o ganho de cambagem de forma natural. Isso permite que as rodas fiquem levemente “engolidas” pelos paralamas (fender tuck) sem destruir a área de contato dos pneus com o solo em condução reta, garantindo uma aderência excepcional e aquele visual agressivo e elegante que define os melhores carros de exposição europeus e californianos.
O Potencial para Projetos Clean e OEM+: Menos é Mais
O termo Clean na cultura automotiva refere-se à eliminação de excessos. Não há espaço para body kits espalhafatosos, aerofólios gigantescos ou adesivos desconexos. O objetivo é acentuar as linhas originais desenhadas pelo estúdio de design da fábrica, corrigindo apenas a altura em relação ao solo e o preenchimento das caixas de roda.
Já a filosofia OEM+ (Original Equipment Manufacturer Plus) foca em atualizar o carro utilizando peças de performance discretas ou componentes de versões mais raras do próprio modelo, ou de irmãos de marca mais modernos (como rodas de Accord de gerações posteriores ou pinças de freio de Civic Type R/Integra).
Estética Externa: Alinhamento e Minimalismo
A carroceria do Accord EXR dos anos 1990 envelheceu como vinho. A linha de cintura baixa e a generosa área envidraçada criam uma silhueta clássica de três volumes. Para um projeto Clean de sucesso, o segredo está nos detalhes:
- Restauração de Plásticos e Frisos: Manter os borrachões laterais e frisos de para-choque impecavelmente pretos ou pintados na cor correta da carroceria.
- Iluminação de Época com Toque Moderno: A substituição das lanternas traseiras por modelos com lentes “Clear” (totalmente translúcidas na parte de ré e pisca) ou o uso do padrão USDM (especificação americana, com as luzes de posição laterais acesas) eleva o nível do projeto de forma sutil.
- Lips Dianteiros e Traseiros discretos: O acréscimo de um spoiler inferior dianteiro (lip) baseado nos modelos originais da Mugen de época ou do Accord do mercado japonês (JDM) confere uma ilusão de que o carro está ainda mais próximo do solo, sem quebrar a fluidez do para-choque original.
O Desafio das Rodas e o Fitment Correto
Escolher as rodas para o Accord EXR exige critério. A furação original de quatro furos (4×114.3) limita um pouco as opções no mercado nacional quando comparada à furação popular de 4×100. No entanto, essa limitação força o projetista a buscar soluções mais exclusivas.
Rodas clássicas de época com visual de três peças, raios cruzados ou designs em monobloco limpos (como as clássicas Desmond Wise Sports, Racing Hart ou mesmo réplicas de alta qualidade de modelos BBS e Volk Racing) casam perfeitamente com a proposta. O diâmetro ideal para manter a proporção visual nas caixas de roda do Accord anos 1990 gira em torno de 17 polegadas. Rodas aro 18 podem exigir modificações severas nos paralamas internos (fenders) e comprometer excessivamente o conforto de rodagem.
O ajuste do offset (distância da face de assentamento ao centro da roda) deve ser calculado milimetricamente para que a borda da roda fique faceando o paralama, criando o aclamado flush fitment, onde não há vãos exagerados e o pneu parece moldado perfeitamente sob o arco da carroceria.
O Interior JDM de Época: Conforto e Preservação
Entrar em um Accord EXR dos anos 1990 é fazer uma viagem no tempo. O painel baixo e horizontal oferece uma visibilidade que nenhum sedan moderno consegue replicar devido às rígidas colunas de segurança atuais. A qualidade dos materiais impressiona: plásticos macios ao toque (soft touch), veludo de alta densidade nos bancos (ou couro nas versões mais completas) e encaixes que não geram ruídos parasitas mesmo após três décadas.
Em um projeto Clean e OEM+, o interior deve ser tratado como um templo de preservação.
| Elemento do Interior | Abordagem de Customização OEM+ / Clean | Impacto no Projeto |
| Volante | Substituição pelo volante original de quatro raios por um clássico Nardi Torino em madeira ou couro preto, ou manter o original restaurado. | Melhora a empunhadura e adiciona sofisticação clássica sem destoar do painel. |
| Manopla de Câmbio | Nos modelos manuais, uso de manoplas de alumínio polido ou titânio estilo Spoon/Mugen. Nos automáticos, preservação da alavanca original com coifa restaurada. | Introduz um toque sutil de esportividade mecânica ao console central. |
| Sistema de Áudio | Instalação de unidades principais (head units) com visual retrô de dois din (Double-DIN), mas dotadas de conectividade bluetooth moderna e espelhamento discreto. | Mantém a estética dos anos 1990 intacta, eliminando telas flutuantes espalhafatosas, enquanto entrega conveniência moderna. |
| Tapeçaria e Tapetes | Restauração do carpete original e uso de tapetes sob medida com gramatura alta e bordados discretos com o logotipo da época. | Renova a sensação de carro zero-quilômetro e reforça o aspecto de preservação executiva. |
Prós e Contras de Adotar um Accord EXR nos Dias de Hoje
Como qualquer veículo antigo ou neoclássico, o Accord EXR tem suas peculiaridades. Antes de iniciar a busca por um exemplar em sites de classificados, é fundamental colocar na balança a realidade prática de manter e modificar este sedan japonês.
Vantagens (Os Prós)
- Conforto de Rodagem Inigualável: O isolamento acústico e o acerto dinâmico tornam viagens longas um absoluto prazer. Ele engole quilômetros de rodovia com estabilidade invejável.
- Exclusividade na Cena: Em encontros automotivos, a profusão de Civics e Golfs é gigantesca. Um Accord EXR montado com bom gosto no padrão Clean destaca-se imediatamente pelo fator raridade.
- Confiabilidade Mecânica: O motor F22 e os sistemas auxiliares são virtualmente indestrutíveis se receberem óleo de qualidade e arrefecimento correto. É um carro que raramente deixará o proprietário na mão por falha de projeto.
- Custo de Aquisição: Comparado ao preço inflacionado de Civics hatch dos anos 1990 e outros ícones JDM, o Accord ainda entrega um custo por benefício excelente, permitindo reservar uma fatia maior do orçamento para as modificações.
Desafios (Os Contras)
- Peças de Acabamento Escassas: Se a mecânica é amplamente compartilhada e fácil de resolver, o mesmo não se aplica a faróis, lanternas, frisos, parachoques e componentes de acabamento interno. Quebrar uma lanterna traseira de Accord EXR pode significar semanas garimpando desmanches ou recorrendo à importação direta via plataformas internacionais (como eBay ou RockAuto).
- Transmissão Automática de Quatro Marchas: A grande maioria dos Accord EXR que vieram para o Brasil utiliza a caixa automática de quatro velocidades. Embora confortável e durável, ela rouba bastante da agilidade do motor F22 e limita o apelo puramente esportivo do carro. Encontrar um exemplar manual de fábrica é como achar uma agulha no palheiro; a alternativa é realizar o processo de conversão para câmbio manual (manual swap), que exige paciência e mão de obra qualificada.
- Dimensões e Uso Urbano: O Accord é um carro grande para os padrões de vagas modernas em grandes centros urbanos. O diâmetro de giro não é dos menores, o que exige mais manobras em garagens apertadas.
O Guia Prático para Modificação Segura
⚠️ AVISO DE ISENÇÃO DE RESPONSABILIDADE
Os procedimentos de modificação mecânica, de suspensão e estruturais citados neste artigo possuem caráter puramente informativo e de inspiração cultural. Qualquer alteração em sistemas de segurança, freios, motor e suspensão deve ser realizada por profissionais qualificados, utilizando ferramentas adequadas. Não nos responsabilizamos por danos materiais, financeiros ou lesões físicas causadas pela execução inadequada de procedimentos por parte do leitor. Faça modificações de forma consciente, legalizada e segura.
Se você decidiu que o Accord EXR será o seu próximo projeto, o caminho para o sucesso exige uma ordem lógica de execução para evitar frustrações financeiras e técnicas.
[Saúde Mecânica Preventiva] ➡️ [Atualização de Freios e Buchas] ➡️ [Gerenciamento de Altura (Coilovers)] ➡️ [Rodas e Ajuste de Fitment] ➡️ [Refinamento Estético e Detalhamento]
1. Saúde Mecânica em Primeiro Lugar
Antes de comprar um jogo de rodas caro, faça uma revisão profunda no motor F22. Troque a correia dentada e os retentores do comando e do virabrequim. O sistema de arrefecimento deve ser limpo e abastecido com aditivo de qualidade; motores de alumínio detestam água de torneira, que causa corrosão galvânica no cabeçote. Verifique as juntas da tampa de válvula e do solenoide do VTEC, pontos crônicos de pequenos vazamentos de óleo em Hondas dessa era.
2. O Upgrade de Suspensão Correto
Evite cortar molas ou utilizar molas encolhidas. O Accord é um sedan pesado (aproximadamente 1350 kg) e suspensões mal preparadas causarão um comportamento dinâmico perigoso, além de destruir as torres de suspensão e os braços Double Wishbone.
Invista em um kit de coilovers reguláveis com ajuste de carga de mola e amortecimento (damping). Marcas consagradas internacionalmente oferecem kits específicos para as plataformas CB e CD que mantêm o conforto em vias urbanas e firmam o carro em velocidades de estrada. Ao rebaixar, substitua todas as buchas antigas por buchas de poliuretano de alta qualidade ou borracha premium original para eliminar folgas na direção.
3. Ajuste de Cambagem e Alinhamento
Como o sistema Double Wishbone ganha cambagem negativa acentuada ao reduzir a altura, você precisará de kits de braços superiores ajustáveis (camber kits) na dianteira e na traseira caso deseje trazer as rodas de volta a uma especificação de desgaste uniforme de pneus. Se a ideia for adotar a estética de cambagem sutil para acomodar rodas de tala mais larga, o alinhamento de convergência (toe) deve ser zerado com perfeição, pois é a convergência errada — e não a cambagem isolada — que destrói os pneus rapidamente.
Conclusão: A Nobreza da Linha Sutil
O Honda Accord EXR dos anos 1990 prova que a cultura automotiva não vive apenas de cavalaria extrema e modificações visuais chocantes. Há uma elegância singular em resgatar um sedan de luxo de trinta anos atrás e devolvê-lo às ruas com uma postura refinada, pintura impecável e rodas que parecem ter sido esculpidas sob medida para a sua carroceria.
Projetos baseados na vertente Clean e OEM+ celebram a engenharia original. Eles exigem maturidade do entusiasta, que entende que o verdadeiro impacto visual não vem do espalhafato, mas sim do alinhamento perfeito, da limpeza do cofre do motor, do interior imaculado e da capacidade de rodar centenas de quilômetros com suavidade, robustez e a certeza de estar guiando uma verdadeira joia da era de ouro da engenharia automotiva japonesa.
Perguntas Frequentes (FAQ)
O motor F22 do Accord EXR é resistente para receber turbo?
Sim. O bloco F22 é incrivelmente robusto devido às suas camisas de ferro fundido grossas e ótimo desenho de mancais. Projetos de turbo de baixa pressão (em torno de 0.6 a 0.8 bar) com miolo original conseguem atingir facilmente a casa dos 200 a 220 cavalos de roda de maneira confiável, desde que o acerto de injeção eletrônica e o gerenciamento térmico sejam bem executados por um profissional.
Qual a diferença real na dinâmica ao rebaixar o Accord comparado a um carro com suspensão MacPherson?
Na suspensão MacPherson, conforme o carro baixa, o braço inferior perde o ângulo ideal, alterando o centro de rolagem e fazendo o carro perder aderência lateral de forma abrupta. No sistema Double Wishbone do Accord, os braços paralelos mantém o pneu perpendicular ou ligeiramente inclinado para dentro nas curvas, aumentando a área de contato do pneu com o asfalto conforme a suspensão trabalha. O resultado é um carro muito mais estável, previsível e seguro em curvas, mesmo em alturas bem menores que a original.
É muito difícil encontrar peças de reposição mecânica para o Accord EXR no Brasil?
Peças de manutenção preventiva mecânica como pastilhas de freio, filtros, velas, cabos, correias e juntas são fáceis de encontrar, pois muitas são intercambiáveis com outros modelos Honda da época ou estão disponíveis em distribuidores especializados em importados. O desafio real reside em componentes de funilaria, faróis, acabamentos internos de portas e botões específicos, que costumam exigir importação por parte do proprietário.
Posso usar rodas de 5 furos no Accord EXR dos anos 1990?
A furação original do EXR nessa década é 4×114.3. Para utilizar rodas de 5 furos (como a popular 5×114.3 dos Hondas modernos), existem duas alternativas: o uso de adaptadores de furação de boa qualidade (que aumentam o offset da roda em pelo menos 15mm a 20mm, exigindo cuidado no cálculo da tala) ou a realização do chamado 5-lug swap, substituindo os cubos e discos de freio por modelos compatíveis da linha Honda de 5 furos (como os do Honda Odyssey de primeira geração ou Prelude de quinta geração).








